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Abuso na sala de parto: Por que os conselhos de medicina calam diante da violência institucionalizada que aterroriza as mães?

A chegada de um filho deveria ser um dos momentos mais luminosos e seguros na vida de uma mulher. No entanto, para milhares de brasileiras, a sala de parto transformou-se em um cenário de terror psicológico e físico. O que deveria ser acolhimento frequentemente se revela como um espaço de opressão institucionalizada, onde práticas obsoletas, desrespeito e agressões explícitas são normalizadas sob o falso argumento de que “o importante é que a mãe e o bebê saiam vivos”. Diante dessa realidade estarrecedora, surge uma pergunta inevitável e dolorosa: por que os conselhos de medicina calam diante dessa violência?

O silêncio cúmplice das autarquias médicas

Os conselhos regionais e federal de medicina têm como missão legal zelar e disciplinar a ética médica, garantindo que a prática da profissão seja exercida com dignidade e respeito à vida humana. Contudo, quando o assunto é a violência obstétrica, essas instituições parecem adotar uma postura de corporativismo cego. Denúncias graves de abusos cometidos por médicos — desde a recusa de alívio para a dor até intervenções cirúrgicas desnecessárias e sem consentimento — muitas vezes encontram barreiras burocráticas intransponíveis ou terminam arquivadas na impunidade.

Esse silêncio ensurdecedor não é um mero descuido; ele revela uma cumplicidade sistêmica. Ao não punirem rigorosamente os profissionais que violam os direitos humanos das gestantes e parturientes, os conselhos passam uma mensagem perigosa: a de que o corpo da mulher no parto pertence ao médico e à instituição, e não à própria dona. Essa omissão perpetua um ciclo de impunidade que normaliza o abuso dentro dos hospitais públicos e privados do país.

A normalização do absurdo na rotina hospitalar

Para entender a gravidade do problema, é preciso olhar para a forma como a obstetrícia intervencionista se enraizou na cultura médica brasileira. Procedimentos como a manobra de Kristeller (empurrar a barriga da mulher para expulsar o bebê, prática explicitamente repudiada pela Organização Mundial da Saúde), a episiotomia de rotina (corte no períneo sem indicação clínica real) e a proibição de acompanhante são tratados internamente como “questões técnicas” ou “necessidades do plantão”.

O peso do machismo estrutural na medicina

O cerne dessa violência é, indiscutivelmente, de gênero. A sala de parto reflete o machismo estrutural que ainda permeia a sociedade e, de forma muito aguda, as escolas médicas. A voz da mulher é sistematicamente deslegitimada. Quando ela reclama de dor, é chamada de “exagerada”. Quando questiona um procedimento, é rotulada de “difícil” ou “histérica”. A violência institucional utiliza-se da vulnerabilidade extrema da parturiente para anulá-la enquanto sujeito de direitos, transformando-a em mero objeto passivo nas mãos de uma equipe que se acha dona da verdade.

A luta por autonomia e a urgência da mudança

Apesar do cenário desolador e da omissão das entidades de classe, o movimento de humanização do parto tem dado voz a essas mulheres. Doulas, ativistas, juristas e coletivos feministas vêm fazendo o trabalho que os conselhos de medicina se recusam a fazer: informar, acolher e exigir justiça. A informação é a arma mais poderosa contra a violência obstétrica, pois o abuso prospera no segredo e no desconhecimento.

É inadmissível que o Brasil continue liderando vergonhosas estatísticas de intervenções desnecessárias e traumas decorrentes do parto. A medicina precisa passar por uma urgente redemocratização interna, onde o respeito à autonomia da paciente seja o pilar inegociável de qualquer conduta terapêutica.

Conclusão

O combate à violência obstétrica exige, antes de tudo, coragem para enfrentar o corporativismo que protege agressores de jaleco. Enquanto os conselhos de medicina continuarem fingindo que o problema não existe ou encolhendo os ombros diante do sofrimento materno, a sociedade civil precisará manter a vigilância e a denúncia. O silêncio institucional é uma forma de agressão tão perniciosa quanto o corte desnecessário ou o grito desrespeitoso na hora do nascimento.

Garantir que as mulheres possam parir com dignidade, segurança e respeito não é um favor, é um direito humano fundamental. É preciso transformar a sala de parto de um local de medo em um espaço de respeito à vida, onde nasçam não apenas bebês saudáveis, mas também mães respeitadas em sua inteireza e autonomia. A mudança é urgente, e a cobrança por justiça não pode mais ser ignorada.

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